Não uma entrega. Mas a precarização. O lanche, a entrega e a ruptura
Você está em uma hamburgueria. Com sotaque estrangeiro no atendimento, luz intimista, temática desértica, sim, esse tipo mesmo. Você pede um hambúrguer, batata (geralmente meio fria) e uma bebida. Que tipo de atendente você imagina? Eu? Um jovem com um sorriso no rosto, uniforme temático — colorido, mas discreto e um atendimento invejável. Até o inglês para falar os nomes complicados esses atendentes dominam. Eles são uma das razões do sucesso desse tipo de estabelecimento no Brasil nos últimos 20 anos. Seguram pratos, bandejas e mesas dobráveis como numa coreografia. No fim, claro, chega a conta: o combo com refil sai por uns R$ 70, mais o serviço. Pago, agradeço e volto para casa.
Outro dia, eu e minha esposa trabalhávamos em home office. Ela, mais do que eu, ficou com saudade do "sanduíche com sotaque". Vimos uma promoção: R$ 35 no almoço — sanduíche e batata, sem bebida. Ótimo. Pedimos dois.
Uma das minhas responsabilidades mais importantes em casa é caminhar com nossa cadela. Ao voltar da caminhada, vi um entregador no meu prédio com dois lanches. Pelo cheiro, eram os nossos. Chegaram rápido. O preço era menor que o da loja e, mesmo que a batata não estivesse tão crocante, valeu a pena. Enquanto comíamos, pensamos: pedir em casa é mais econômico, não exige sair, se arrumar, nem enfrentar uma possível fila de espera guiada por SMS.
Depois de comermos e tentarmos fazer as embalagens caberem no lixo, percebi uma diferença importante entre o lanche presencial e o remoto: o entregador. O lanche estava com um cheiro delicioso. O entregador, com um olhar cansado, suado. Depois de deixar os pacotes com o porteiro, ele se abaixou para examinar a roda traseira da bicicleta. Estava torta. Não parecia simples de resolver. Foi quando outro entregador passou, o chamou pelo nome, parou e — em uns dois minutos — resolveu o problema. Logo depois, o celular dele gritou o nome do aplicativo — aquele som irritante. Ele olhou a tela, apertou alguns botões e falou: “Partiu, cara. Tem outra coleta. Valeu!”
Esse atendente merece quantas vezes mais gorjeta do que o atendente presencial?
Tenho uma teoria. Assim como na série Ruptura (Severance), em que funcionários têm suas vidas pessoais e profissionais separadas cirurgicamente, acredito que o consumidor virtual passa por uma ruptura semelhante. Como cidadãos e trabalhadores, queremos respeito e remuneração justa. Mas, quando "rupturados" como consumidores digitais, queremos pagar o mínimo — não importando os efeitos.
E os efeitos estão aí: nas pessoas, nas cidades, nas relações. Jamais imaginaríamos, no restaurante que "traz a Austrália para a Zona Norte do Rio", um atendente suado, cansado, com a ferramenta de trabalho danificada. E sejamos sinceros: muitos de nós, como consumidores, chamaríamos o gerente para relatar o "desgaste" do profissional. Mas e nas entregas? Cadê o gerente para quem possamos reclamar em defesa dos trabalhadores da entrega remota?
Na Alameda Barros, em Santa Cecília, São Paulo, existe uma loja que funciona como centro de distribuição de “iCoisas”. Das seis da manhã até a meia-noite, vemos cerca de 20 entregadores em motos ou sentados em papelão no chão, aguardando serem chamados. Nas árvores, há placas de moradores pedindo silêncio e solicitando que não fechem as entradas das garagens.
O contrato social do trabalho mudou. E não nos damos conta. Ou não nos importamos — até que bata à nossa porta. Não uma entrega. Mas a precarização.
Fábio Santos — Economista (Economia social)
Comentários
Postar um comentário